segunda-feira, 30 de novembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Há Animais que não esquecem. Há homens que recusamos lembra-los

A palavra, seja dita ou escrita, tem a força que tem, em função do momento, a quem se diz, e o que se quer exemplificar. Direi mais uma vez, que quanto mais conheço alguns homens, mais acarinho os animais, porque são, acima de tudo, leais. Como me lembro com alguma frequência do meu amigo Dembos, aqui vão mais umas fotos do seu comportamento, que ilustram o seu grau de prontidão.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Alguns reparos.

Aproxima-se o acto eleitoral, este, pela primeira vez fruto da extinção dos órgãos sociais, pelo Senhor Presidente da mesa da Assembleia Geral em reunião convocada, estranhamente, pelo vice-presidente em exercício, e pelo Presidente do Conselho Fiscal. Foi efectivamente, para a maioria dos elementos presentes na reunião uma surpresa, o que não o terá sido eventualmente, para outros e quem sabe, mesmo para quem não pertencia aos órgãos sociais.

Já no mandato do biénio 2002/2004, houve uma situação, mais crítica do que, a que foi desta vez “provocada” porque o presidente sofreu um acidente cerebral, o vice-presidente ficou inoperativo também por razões de saúde, e o secretário faleceu. Aqui, funcionou o esforço a solidariedade, e como baluarte, esteve sempre a lealdade de alguns elementos que se agigantaram conseguindo gerir a Associação até ao acto eleitoral previsto, que temporalmente era mais ou menos o de agora, só que as ambições que se perfilavam eram bem diferentes.
Desta vez, era preciso incendiar o bom relacionamento que o momento exigia, e criar focos de animosidades. Pensa-se até, que actuações previamente estudados.
O factor surpresa, foi e continua a ser, uma forma utilizado pelos Fuzos para aniquilar o inimigo e conquistar o objectivo, não se esperava que tal manha fosse posta em prática contra os seus próprios camaradas. Isto não foi jogo limpo, e se o objectivo era conquistar a Associação desta forma, a instituição e os seus sócios, não mereciam tanta falta de lealdade, uma palavra, com conteúdo muito caro aos Fuzileiros, uma família, que apadrinha quem gosta da sua forma de estar. Não há passador que elimine todas as impurezas, e sempre aparece um infiltrado que como o nome indica, fugiu ao controlo, que se pauta apenas, por acreditar no camarada, mesmo que mentindo, tenha dito ser Fz sem o ser! Não sei! Mas acreditar na sincedidade de uma qualquer gente, tem os seus perigos, quando se lida com determinado tipo de pessoas, quando não fala sinceramente, de forma objectiva e consciente, como depois se vem a constatar.
Uma qualquer associação para que perdure tenha aderentes e colaboradores, tem que ter vida associativa, e não só o nome. Que eventos! Que iniciativas! Que formas para cativar os mais renitentes a fazer parte do grupo! Tem que se ser criativo para que os sócios se não se sintam apenas, com o direito de pagar as quotas. A Associação de Fuzileiros também faz a diferença, pelo tipo de sócios que tem, vejamos então: os simpatizantes, são também do melhor que tem, que se lhe oferece? que não seja darmos-lhes a possibilidade de estarem ligados associativamente a pessoas de quem gostam! Mas é pouco, tem que se pensar em alterar os estatutos, para que lhe possibilitem uma outra participação na vida da sua associação. Não irem para os corpos sociais, isso é evidente e pacífico, menos não o é, quando não podem participar nos trabalhos das assembleias, penso que ao intervirem, dariam um contributo mais desapaixonado, o que seria certamente benéfico. Há lacunas que começam a ter barbas já brancas, por exemplo: quando é que a Associação se fez representar, na partida e chegada dos nossos Fuzos em missões no estrangeiro? E porque se não convidam os homens que em cada juramento conquistaram a boina, a fazer uma visita à Associação oferecendo-lhe nem que seja, um moscatel de Setúbal, na falta de uma camisola da casa! Quando é que se sensibilizaram os responsáveis dos cursos para se poder dar uma palestra para que o espírito entre velhos e novos saia reforçado! É preciso mostrar-lhes que a instituição é de todos (sejam ou não sócios) e não apenas dos ex. combatentes. Criar mesmo uma quota facultativa de15 ou 20,00 € para quem está no activo e queira, usufruir dessa prorrogativa. Felizmente que já se acabou com a jóia, que por ser um absurdo, alguns camaradas se não fizeram sócios.
Há de facto muitas coisas a fazer, para se atingir os objectivos que os fuzileiros merecem, também, através de uma prática mais participativa de uma Associação civilizada.
Mário Manso

domingo, 22 de novembro de 2009

Aqui estou de novo

Ora vivam todos quanto por aqui vão passando, aos que se retêm, ou mesmo os que passam como cão por vinha vindimada. Não tenho dado assistência que merecia a prenda que o Camarada de Armas e Amigo Vitor Costeira me ofereceu que foi, a feitura deste ao blogue. Mas por falta de paciência, até mesmo para me aturar a mim próprio, às vezes, tem contribuído para tal letargia. A paciência é efectivamente um factor importante para que estejamos munidos da paz suficiente para lidarmos com memórias, converte-las em histórias, mesmo que, sensórias ou ilusórias. Mas quando nos falta esse estado de espírito, porque se é obrigado aturar as madurezas de outros já bem crescidos, é obra tão impeditora, que não deixa que outras surjam.
Prova ou justificação, ou nem uma coisa nem outra, aqui vai a primeira lamúria de umas quantas a que vou dar o nome de “HERÓI COM PÉS DE BARRO E NARIZ DE PINÓQUIO” que retrata uma pessoa que se infiltra, deu empurrões, cria uma teia onde envolve alguns incautos, pessoa que não olha a meios para atingir fins, único senão, dizer ter sido politico, classe que não se escandaliza quando tratados por mentirosos.
“
Para que se conquistem objectivos
É estratégico tentar conhecer
Os movimentos mais primitivos
E não nos deixarmos adormecer

EMPURRÕES NÃO!!!!
Endereço a todos os camaradas de armas dos corpos sociais da Associação de Fuzileiros, esta minha reflexão, (se assim quiserem entender) sobre a tempestade; em que se encontra a navegar este nosso, aparente fragilizado bote, mas que, por ser teimoso e resistente, continua em frente, porque a outras tempestades ainda mais desbastadoras ele sobreviveu.
Não fora o infortúnio que nos bateu à porta, pela incapacidade do nosso muito querido Presidente, e não estaríamos a navegar um pouco ao sabor das ondas, algumas vezes, demasiadamente alterosas e manhosas, que vão criando alguns problemas à navegação, que se esperava fosse, com rumo a bom porto. Direcção essa, ambicionada por todos; pensava eu! Hoje, interpretando a agulha magnética da fragilizada bússola que nos dita o rumo, estou triste, mas não vencido ou convencido, por este mar de acalmia aparente.
Como diz o ditado popular: homem prevenido, vale por dois, então, apoiando-me no dito, desconfio das correntes que se possam mover no seu leito, prontas a arrastar os mais incautos, e como me já senti, arrastado e empurrado, mais do que uma vez! E não fora a minha experiencia de quase dez anos, e pela primeira vez no associativismo, parideira de muita coisa boa mas também de asneira, e já me teria afogado.
Sei que não sou radical, mas não tão maleável, como se gostaria. Mas sê-lo-ei muito menos, quando querem, sem jeito e sem razão, empurrar-me do comboio em andamento, que tanto esforço também despendi para o colocar a andar. Ao contrário do que é lógico, foi mais fácil apanha-lo em bom andamento, do que parado, e já meio enferrujado, aí os heróis não apareceram.
Desculpem-me os meus amigos, os mais, os menos e os nada, deste meu desabafo. Entendam ou não, todos merecem este meu desafogo, que até, pode não ser totalmente entendido, (mas que pelo menos seja minimamente percebido) ou parecer destituído de qualquer fundamento ou lógica, mas pelo menos, que não me acusem de não alertar para a hipótese, de haver emboscadas pelo caminho, na conquista do objectivo.

As minhas saudações anfíbias.

O nunca ausente, quando presente: Mário Manso.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

REVENDO O FILME


De boleia muito gostava
Veja-se a sua felicidade
O grupo nunca largava
Pela sua cumplicidade

Em amena cavaqueira
Para o tempo passar
Sentados numa cadeira
Esperando pelo jantar


Para a carta de condução
Era necessário conduzir
No momento da instrução
Não se podia distrair

Já em Lisboa no seu espaço
Apreciando o rio e a paisagem
No seu condomínio terraço
Como a prestar vassalagem

Para o salto exercitar
Até servia a galinha
Não me podia descuidar
Porque nunca mais seria minha

Posto da pedra do deitiço
Em pleno Rio Zaire
Onde pairava o enguiço
Mais tarde veio o desaire


Ao treino não se furtava
Era mesmo grande artista
Qualquer coisa ele treinava
Até mesmo ser ciclista

Jogava a qualquer lugar
Não se fazia rogado
Quem o quisesse julgar
Tinha que ser moderado

Desportista aplicado
Sempre atento à jogada
Se não era respeitado
Usava logo a dentada

Sempre contribuiu
Com a sua capacidade
Às dificuldades não fugiu
Por isso a minha amizade


As fotos inseridas na postagem (marcas da guerra), foram todas tiradas em Cabinda na lagoa do Massabi quando decorria o ano de 1967, com o meu amigo Dembos, a mostrar que também sabe saltar, estar, partilhar e até perfilar junto a uma das marcas por nós deixada, que muito provavelmente já terá sido arrancada. Foi erguida na minha primeira comissão e pelo meu Destacamento. Se bem me lembro, dizia assim de forma sentida, ainda que ilusória: Homenagem dos que partem, aos que ficam, na defesa das fronteiras de um Portugal eterno. Este posto tem algumas histórias, tal como outros pontos onde estive, que me marcaram de forma indelével. Vou fazer duas abordagens por Bombordo, que, para quem não saiba, é o lado do coração, quando aproamos o nosso olhar. (avante) Nenhuma delas foi referenciada no nosso (vosso) livro Fuzileiros Força de Elite.

As duas, tem também como um dos artistas principais, o meu grande e muito racional canito. Aconteceu nesta terceira vez que fiz parte da guarnição deste posto, ser cabo de rancho. Era uma situação confortável e que me dava uma certa disponibilidade para ir fazer a minha psicó nocturna, numa sanzala (um povo indígena) bem longe das nossas instalações onde, tentava dormir (bem acordado) de vez em quando, com uma jovem nativa a cujo pai tinha comprado o cabaço, (virgindade) tudo numa boa, sem intimidar ou forçar, apenas, seduzindo-a sem as falsas promessas de a trazer para Lisboa! Aluguei um apartamento, (cubata) comprei lençóis, um mosquiteiro, e um candeeiro que gastava do petróleo que eu ia levando para o soba distribuir pelos seus patrícios. Por lá fui fazendo umas sentinelas, em tempo variável, sempre em função das horas em que era feita a patrulha, que alternadamente cobriam periodos diferentes do dia e da noite. A boleia era sempre garantida, porque estava concertado entre mim e o pessoal da patrulha, a abordagem diária, com a informação da hora estabelecida para partida da patrulha da noite. O inseparável Dembos, fazia continuamente comigo, parte da guarnição de um dos dois botes daquelas missões. (nocturnas) Depois de mais ou menos meia hora, desembarcávamos num cais improvisado existente naquele condomínio, (aberto) que se confrontava com toda aquela imensidão de água e que nas noites mais escuras, era uma autêntica aventura percorre-lo sem ir ao banho. Tinha sempre em conta as vantagens que era, desembarcar sem dar muito nas vistas “ouvidos” para que a minha presença fosse o mais ignorada possível, não viesse o diabo tece-las, porque ficar sozinho numa sanzala onde a hipótese de haver guerrilheiros era potencial e pouco incógnita, não era pêra doce e eu tinha isso sempre presente na minha estratégia, até mesmo se tivesse de abandonar o apartamento rapidamente, estava planeado Mas a irreverência da juventude, tem uma força avassaladora, ainda que às vezes, pouco credora. Mas neste caso, sempre que ia ter com a Maria dava conhecimento ao Comandante do posto, e do pelotão, hoje Doutor Paulo Marques bem conhecido na nossa praça, que me dizia com graça, que eu, estava a provocar o aparecimento de uma notícia (morreu o cabo Fuzileiro Especial Mário Henriques Manso em combate!) Retorquia-lhe que, uma guerra tem sempre activas, várias frentes e vertentes, algumas delas latentes, a que era necessário dar resposta, porque também na guerra coisas há, que se não se podem protelar, e que em último caso, se não houver alguém para colaborar, um homem tem que desenrascar a situação, o que acontecia na maioria das vezes.

Quando hoje faço o filme andar para traz, é que me apercebo do que a virilidade de um homem é capaz. Foi sempre um risco mal calculado é verdade, mas quando se anda bem acompanhado somos capazes de fazer coisas que hoje, nos fazem ter saudades de algumas peripécias vividas na juventude. O Dembos transmitia muita confiança, então, antes de sair do apartamento, o que acontecia de imediato com a chegada dos primeiros sons, tão característicos dos motores dos botes, naquele tormentoso silêncio da noite. Logo que abria a porta da cubata, o meu amigo imediatamente saía para analisar o exterior e quando de novo entrava abanando o rabo, era prenúncio de que não havia perigo e o caminho estava livre para o reembarque. Algumas poucas vezes, aconteceu, sair e começar a ladrar, obtendo como resposta ai ué!! senhor!! Senhor!! o Dembos, de facto não simpatizava nada com os indígenas, ao mesmo tempo que eles lhe dispensavam um enorme pavor, coisa que até dava jeito.
Assim aconteceu muitas vezes em outras situações. Foi sempre um fiel guarda-costas que mesmo não lhe pagando salário, daria a vida por mim satisfazendo-se apenas com umas festas de reconhecimento.
Se duvidas houvesse elas desvaneciam-se, com um outro seu comportamento.
Nesta mesma estada tive o paludismo e durante três dias, presenteou-me em total permanência com a sua sentinela, cujo posto de observação achou por bem ser debaixo da minha cama. Dai, controlava todos os camaradas que me iam abordando, questionando o meu estado de saúde mas, se a voz passava os decibéis que para indiciassem alguma afronta, ele rosnava de imediato, mesmo conhecendo bem todos os companheiros daquela aventura. Tive que me levantar com as dificuldades inerentes à febre alta que ainda tinha, para que ele comesse, bebesse e fizesse as suas necessidades, coisa que não fazia havia muito tempo. Foi uma lição de abnegada camaradagem, que marcou todos quantos assistiram a tão grande manifestação de alegria correndo de um lado para o outro, ganindo e saltando contra o meu peito como a querer abraçar-me.

O que a sua atitude transmitiu
Foi mais que uma imagem
Quando guardou não mentiu
No humano é camaradagem

Mais tarde, já em Luanda na base em Belas aproximava-se o fim de mais esta comissão, e de novo abraçava a responsabilidade de Cabo de Rancho. Então, sempre que pela manhã me aprontava para ir para a praça (Maria da Fonte) fazer as compras, “para matar a malvadas dos meus camaradas”, era frequente aparecer junto ao jipe fazendo-me entender que queria ir comigo, assim ia acontecendo mas algumas vezes se descuidou e não foi. Certo dia, não dava jeito que fosse comigo, porque havia muita coisa a comprar e ele sempre contribuía para me empastelar o tempo, conversando com pessoas que entretanto se ia conhecendo, a maioria das vezes por sua causa. Acontecia, que quando ficava na base, muita dessa gente, desde as vendedeiras aos clientes, me perguntavam por ele. Fui forçado a conhecer muitas pessoas, especialmente senhoras, e que senhoras! Então um dia, e sem grande necessidade, lá vai a dupla passar um bocado da manhã, especialmente, para dar dois dedos de conversa com pessoas, algumas delas muito interessantes.

Na zona das bancas de pequeno consumo, estando conversando com a senhora do caldo verde, apercebo-me que lateralmente noutra banca uma senhora já conhecida com a sua mulatinha ali fazia compras. O cesto estava no chão ao lado da empregada já com algumas aquisições, de imediato, pensei numa marosca e sinalizei o cesto ao Dembos e fiz-lhe entender que o fosse buscar. “coisa que fazia com gosto”. A ordem foi cumprida de imediato, com um grau de prontidão de fazer inveja a alguns militares. Coloquei-o do lado oposto às rapinadas protegendo-o da sua visão. Acto contínuo, a mocinha toda atrapalhada, volta-se e revolta-se, e de cesto não havia rasto, levando a senhora a aperceber-se da situação. Foi algum tempo que desfrutei com gozo, na esperança de não ter algum dissabor, mas como era uma das amigas do Dembos, só, presumo eu, dava-me alguma garantia que não ia haver peixeirada. Assim aconteceu, quando comecei a ficar com pena da mocinha, resolvi chegar-me a elas sendo certo, que o Dembos ficava junto ao cesto, e cumprimentei-as envolvendo-me logo nas preocupações, das espoliadas, que ainda não tinham visto o artista que provocou a cena, o que levou a patroa a perguntar por ele, estando de costa para o furto, respondi-lhe chamando pelo “ladrão”.
A senhora era ainda jovem mas muito menos que eu, tinha um sorriso que deliciava quem quer que fosse, mesmo que não se lhe fizesse, uma leitura erótica. Fixou o olhar em mim de tal forma, maliciosa, que eu, até fiquei sem jeito, e sem proveito, ao mesmo tempo que diz, meu malandro olhei para o lado e o rapinante ali estava ao meu lado de cesto suspenso na boca, dando gozo a todos quantos, entretanto se tinham apercebido.
Aquela brincadeira desfez barreiras que facilitaram muito uma aproximação entre pessoas, alguma delas, dariam frutos bem maduros e gostosos, não tenho dúvidas, porque em mais duas vezes que encontrei a dita bendita, estava só, o que não tinha antes acontecido, e não creio que a empregada tenha adoecido. Era uma situação impoluta, a que faltava tempo para dar luta
Tinha chegado a minha última ida á praça de Luanda, e por ironia do destino, fui surpreendido pela voz envolvente e sedutora da dita senhora, com um olá Mário!.. o Dembos foi certamente a razão daquela abordagem tão suave, porque fez-lhe de imediato uma festinha na cabeça, naquele momento, baixei-me também sugerindo ao Dembos que a cumprimentasse o que ele facilmente fazia, levantando a pata direita. Estes movimentos meio atabalhoados provocaram uma pequena colisão nas faces de bombordo, que nos deixou de tal forma afogueados, que mais parecia, que tínhamos estado abraçados.

Os meus avios, eram naquele dia poucos e estavam feitos, já havia tempo gastava o período que mediava a chegada do transporte, despedindo-me de todas as pessoas com quem por ali me fui relacionando, lá fomos descendo e conversando com o à-vontade de quem já se conhece, e desfruta há muito tempo, de alguma intimidade. Estávamos a cair numa emboscada, e se tínhamos armas para nos defender, não tínhamos tempo para o fazer. Estávamos os dois embaraçados, mas já não dava, nem para morrermos por uns minutos abraçados.
No rés do chão era onde se fazia o grosso das compras, foi mais uma vez o Dembos a vedeta. Ai fui abordado por um vendedor que ali tinha vários produtos, que me propôs comprar o cão quando eu terminasse a comissão, eu disse-lhe que estaria só mas dois e embarcava para Lisboa. Olhe dou-lhe quinze contos e fica já aqui, quer? Não! Ele vale mais, quer ver, e ali mesmo, exibiu algumas das suas capacidades, a troco de uma festa do seu dono, que estou certo, ele não trocava pelas da nossa amiga que ali se deliciava.
Aumentou para vinte contos, ao mesmo tempo me dizia que achou muita graça quando da outra vez, ele ficou a guardar a menina no exterior da praça. Também a Filomena, com a sua empregada, neste dia dispensada, assistiu à cena, que levou muito boa gente a ficar muito limitada nas compras, tendo também sido o seu caso. Então a cena é assim: Acontecia muitas vezes ter necessidade de comprar ovos, e como eram sempre muitos, passava pela senhora e encomendava, ela tinha uma filha com quatro anos, que simpatizava de tal maneira com o Fuzileiro, que queria ir sempre comigo, razão, porque o Dembos lhe tinha tanta afeição.
Acontece, que certo dia, não tinha tempo a perder, mas a miúda chorava porque não a levava, então lá lhe dei a mão até á entrada principal e ai sentei-a no chão e disse ao Dembos que a guardasse. (cuidado! guarda a menina!) era quanto chegava para que, quem indiciasse tocar-lhe, e fosse mais ousado, levava pela certa uma trincadela, era essa a minha garantia, já testada em situações semelhantes, mais ainda, tratando-se de uma criança de quem gostava, e se sentia protector. A cena estava armada e os espectadores não tardaram a aglomerar-se à sua volta, então contado por quem assistiu, que a menina levantou-se algumas vezes, mas logo era segura pela roupa, acabando por sentar-se de novo. Quando cheguei, as pessoas estavam maravilhadas com todo aquele espectáculo.
Muitas e enternecedoras histórias protagonizadas pelo Dembos, poderia contar, mas não quero chatear, como fazia, quando o obrigava a guardar, rastejar, saltar, parar, deitar, salvar na água, e outras que não vou relatar.

Fez a viagem de regresso
Na minha memória ele jaz
Tenho muitas saudades confesso
Nos Fuzos ninguém fica para traz


É muito pouco provável que alguns dos figurantes destas passagens, já tão distantes, venham a ler e reviver este palco de cenas hilariantes algumas até provocantes, porque tal como eu, andariam mais de quatro décadas para traz, e seria muito engraçado.
Também sem pestanejar, um abraço para todos, quantos tiveram a paciência de dispensar algum tempo, a ler, porque razão o dinheiro não compra tudo, e vinte contos eram naquele tempo muito dinheiro, mas para amizades de verdade, não há dinheiro nem falsidade, que vença uma realidade.

UM ABRAÇO DESTE VOSSO AMIGO.

Mário Manso

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

MEMÓRIAS DO ARQUIVO



Já fez quarenta anos que regressei da minha segunda tranche na guerra colonial.
Tinha vinte e três anos, sete anos de Marinha, e quarenta e sete meses teimosamente vividos e sofridos numa tentativa que se previa em vão.
Era uma guerra com igual características, já antes experimentada e abandonada por países, muito mais poderosos que Portugal.
Dos soldados portugueses, poucos eram os que entendiam a expressão de uma guerra que à partida estava perdida. Os combatentes que serviram os ideais do poder político instituído foram uns heróis, muitas vezes mesmo, uns super homens.
Mas não foi só no terreno dos três teatros em que conflito estava instalado, que tais homens, na sua grande maioria, foram colocados à prova de forma pouco honrosa, por muito dolorosa, e pouco respeitosa. Foi assim sem exagero que se traduziram muitas das viagens dos que foram e dos que voltaram. Infelizmente, em nenhum caso, regressaram todos os que embarcaram. É pois, a razão sem negação da minha razão, acreditem nela ou não.

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Viagem de compensação pelo fim da missão

Vou tentar, sem imagem, fazer uma abordagem,
sem VIlanagem, como vi e senti, esta viagem...

Julgo que não foi só a pressa de chegar, que nos levou a embarcar de Luanda para Lisboa sem nada questionar, numa coisa que era tão boa, e que nem tinha um nome á balda, chamado Ana Mafalda.

É o que quero aqui recordar, a quantos tiveram a coragem de tal percurso suportar, com a miragem de à Pátria regressar.
Foi uma viagem que não nos honrou, mas em que muito se sofreu e lutou, contra um inimigo que não aparecendo, disparando ou matando, nos ia torturando, porque o mar não estava doce ou mesmo brando, e à medida que o tempo ia passando, cada vez mais nos asfixiava, e os nervos de todos arrasava.
Bem nos podíamos ter recusado embarcar, ao não se colocar a hipótese de tal solução, não foi por falta de razão, mas pelo respeito e admiração que sempre tivemos pelo nosso comandante que não merecia tal negação.
Qual Titanic qual carapuça!.. Pobres daqueles passageiros, que fizeram parte da sua viagem inaugural, que se julgaram os maiores, porque inauguravam o maior e melhor paquete do mundo, afinal quase todos morreram.

E que ignorantes foram, todos aqueles que nos anos sessenta, fizeram cruzeiros à volta do mundo, pensando certamente que o faziam, nos melhores paquetes da época.
Tristes incultos - coitados!.. não tiveram o privilégio de viajar num barco de carga à balda, de nome Ana Mafalda, ou mesmo no Niassa seu comparsa. Felizmente, que lhes foi vedada essa hipótese, porque assim, muitos milhares de homens despidos de arrogância mas fardados de orgulho; não foram privados, de fazer inesquecíveis viagens em transatlânticos de tão alto gabarito, onde até reinava, quem diria, muita nostalgia sem aqueles gritos de alegria a que uma viagem de regresso normalmente conduziria.

E falando do barco Ana Mafalda, a que chamavam navio, mas que por graça, quem dele se serviu, até lhe chamava barcaça sem propósito de chalaça, e que, quando encostado ao cais, se a maré estava vazia, quase não se via, assim que a maré ia enchendo, ele lá ia aparecendo todo vaidoso e engalanado, devia ter sido mesmo amaldiçoado, para assim ser utilizado era um monstro mal abençoado, muito mal arquitectado, e pouco adequado, para quem tinha passado dois anos, longe de tudo e todos a quem muito se queria, sem mais poder ver quem morria, quem nascia, ou mesmo aconchegar a roupa ao filho que dormia. (alguns diriam com ironia e ingratidão, que foram uma férias à maneira, bem descansados, debaixo da bananeira, bem saciados do que melhor havia, e com hipocrisia alguém diria, que, nem sequer se morria.!!!)

Quem não lembra com nostalgia, aquele dia em que, frente ao Tenerife todos estávamos a ver que o herói as ondas não ia vencer, porque ritualmente a ilha se deixava de ver, e sempre que de frente contra as ondas se empinava, logo nas seguintes se afundava, era uma luta tão árdua, que até o hélice fora da água trabalhava, e quando a noite se apresentava carregada de um luto resoluto, e o mar estava bruto, até nos fazia pensar que ao puto não íamos chegar.

Mas felizmente para tais primatas que no mar lançaram, que os piratas que outrora o mar sulcaram, acabaram, porque tropas com tal moral, qualquer abordagem ia resultar mal, e desculpem insistir, mas nem uma fisga tínhamos para resistir, ou local para fugir.

Mas se acham que chega de palavras tão pouco amáveis ou mesmo intragáveis, vamos lembrar coisas mais agradáveis, por ventura, mais saudáveis! Quem não recorda todo o esplendor daquele convés tamanho, onde se perfilavam as casas de banho, que com um cheiro assinalável, sendo um local pouco invejável, era muito desejável para quem lá precisava de ir, mas que, imediatamente lhe apetecia fugir, será que por ser um sitio onde tudo estava bem, e nada se encontrava mal! É que, mesmo com dor de barriga, os intestinos numa briga, ou a bexiga a rebentar, mais valia aguentar, e com um discreto olhar, fazer directamente para o mar. Mas tornava-se num tormento, tinha-se que estar sempre atento, não fosse alguma piranha com manha, saltar e a minhoca abocanhar, e é bom de prever o que ia acontecer, com o brinquedo tão chocho e frouxo, não dava para entreter, porque a ninguém dava prazer, e a madrinha de guerra que se tornara namorada, não tinha nada, que a fizesse sentir compensada por tanto ânimo e escrita dispensada.

Tudo estava previsto, bem sei, mas eu não desisto e insisto uma vez mais, de que em tal transporte, que não é imaginário, qualquer Veterinário, não permitiria o embarque de outro tipo de animais.
Banho não havia, a não ser quando chovia, tomado na água empossada nos oleados que então cobriam as bocas do porão, onde no seu interior reinava a confusão, e a grande maioria fazia que dormia, com uma forte dose de agonia, que a muitos envolvia, prenda que ninguém queria.
Qual primitivo! Era apenas um camarote colectivo, que por ser tão selectivo, lá se metiam mais e mais, que não sendo propriamente animais irracionais, era tratados como tais, como se fossem filhos, que não tivessem pais. E isso foi demais.

Não recordo se havia refeitório ou não, mas se existia, do dormitório devia ser irmão. Quem não lembra com orgulho, aquelas refeições com feijão cheio de gorgulho, que provocava uma verdadeira guerra intestinal, que por vezes nos fazia sentir tão mal, desencadeando um verdadeiro tiroteio, e o cheiro que impregnava a zona, não era de perfume, mas sim do azedume do vomitado de algum coitado, que continuava deitado de tanto enjoado, e desde que no navio entrou, nunca mais o mar olhou.

Do bom manjar que lhe era dado, pouco ou nada ele comia, de tão almariado. E para estes, o tempo nunca mais passava, porque nada ajudava, o barco pouco andava e só balançava, o enjoo não passava, e a maravilhosa viagem nunca mais terminava. Mas o que mais se desejava, era que o artista não parasse, e algum amargurado pensasse, por ter acordado estremunhado, que o tormento tinha acabado, e ao mar se atirasse,
pensando ser o cais onde alguém o amparasse.

Também no Titanic, onde nada faltava, e nem sequer se enjoava, porque até em cima de uma mesa se dançava à grande e à francesa, lembro aquela beldade que no convés o vento fustigava, e que por pouco ou nada ao mar se atirava, valeu-lhe na hora decisora, uma mão salvadora. Mas no Ana Mafalda se o milagre existiu!.. ainda bem, mas nenhuma senhora se viu, nossa ou de alguém.

Não é uma tentação, mas quem viu, é fácil chegar à conclusão que também no Titanic a viagem foi até à exaustão, mas coitados! só lhes faltou dormir no porão, o que para nós, foi uma especial distinção, e da qual guardamos imensa gratidão.

Mas, eis que alguém, com uma voz rouca que mais parecia do além, á boca do porão grita, terra á vista!., não é sonho não!!, venham ver se a certeza querem ter. Até que enfim, exclamaram alguns com o coração amargurado, e de tudo já saturado, mais valia vir a nado ou de bote, mas tivemos pouca sorte.
Mas, alguma compensação acabou por existir, porque até viajamos sem passaporte, o que é estranho, tal empenho, porque mesmo na carga a granel, tem que haver sempre um papel, chamado carta de porte. Não fomos apanhados no mar alto, porque terão pensado que íamos a salto. Merecíamos outra consideração ao fim de uma comissão em que todos fomos iguais, não foi justo, sermos transportados que nem animais. Merecíamos mais.

Ainda não havia sol, mas é a nascente que nos aparece a ponte, quase em cima do cais, de onde se vêem os sinais, de alguns lenços, com os quais, as lágrimas, dos que chorando, iam limpando, é a angústia de quem desespera, de tanta espera. Aproximava-se a hora de desembarcar, mas era esquisito, porque o dito, não havia meio de atracar, e todos ansiávamos por aquele pessoal abraçar, o que estava bem difícil de concretizar.
Terminada a viagem frustrante naquele casco flutuante, finalmente a entrada, que se esperava triunfante, mas em vez de entrarmos de frente para aquela gente, surge o último revés, talvez por causa da maré, ou do calado do malfadado, entramos de marcha a ré.
Não fora todos aqueles homens em bicos de pés, naquilo que era chamado o convés, e toda aquela gente feliz e crente no cais, ia pensar que era demais, porque um barco fantasma estava a chegar. Mas para quem a viagem foi uma eternidade, ainda soube no fim, ter alguma dignidade, mostrando capacidade, para continuar a luta, disparando à bruta, sobre o inimigo dos nossos amigos, que era a saudade. Sentimento e instinto fraternal, em qualquer animal, seja ele qual.

Se esta brincadeira não foi totalmente entendida como verdadeira, desculpem a omissão pela pouca exactidão, mas é a minha visão e os argumentos da minha razão!.. Foi um olhar distante, duma viagem frustrante, numa coisa que era flutuante, mas de que ninguém ficou amante.

E para terminar, este fraco exemplar, que ninguém pretende magoar, estes versos vos quero deixar:

Não é disto que nos orgulhamos
Mas de coisas mais ousadas
É por isso que aqui estamos
Lembrando águas passadas

Turistas felizardos e sem mágoa
Sem camarote e numa boa
Debaixo da linha de água
De Luanda para Lisboa

Esta prosa não foi sonhada
Foram dias de sofrimento
A honra não foi estimada
E o militar não era jumento

Igualdade era uma mentira
Que se ia difundido
Medida que não se afira
É investimento perdido

Penalizou-se uma geração
Numa luta para perder
Foram sacrifícios em vão
Não assumidos pelo poder

Foi muita desconsideração
Que ainda hoje não enjeito
Por quem deu tudo à nação
Houve muita falta de respeito

Hoje já mais velhotes
Sentimo-nos rejeitados
Por um bando de coiotes
À ingratidão acorrentados
Beijo ou abraço sem embaraço
Mário Manso


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A FORÇA DAS PALAVRAS

NÃO SÃO NECESSÁRIAS MUITAS PALAVRAS PARA QUE NOS SINTAMOS RECOMPENSADOS.

As três linhas seguintes, foi o comentário à minha última postagem.

Valeu a pena a espera!! Depois de ler estas linhas, consigo acreditar que ainda há pessoas que se preocupam com o seu semelhante, e que a Amizade verdadeira não pode desaparecer. Bem haja Sr. Mário!

São estes vocábulos carinhosos com que nos envolvem e alimentam, que me fizeram fazer estes versos que envolvem algumas facetas da amizade a que se refere a Neyde Susana, e que por sua culpa, ofereço aos meus amigos neste fim de ano. Bem haja minha amiga.

A amizade foi determinante
Em muitos momentos da guerra
Sem ponderar cada instante
Fez descer homens à terra

Os amigos da vida militar
São mesmo muito especiais
E não é fácil aquilatar
Porque diferentes dos demais

Houve momentos na guerra
Por incrível que pareça
Que tornou o homem fera
Sem que amizade se esqueça

Colocaram a vida em perigo
Sem por isso darem conta
Estando em causa o amigo
Tudo e todos se confronta

Há amigo que não se esquece
Não pela sua beleza exterior
Porque aquilo que enriquece
É o que lhe vai no interior

Bonitos por fora lindos por dentro
Sempre e em qualquer momento
É nesses que mais me concentro
Com que meu espírito alimento

Quando morre um amigo
Morre um pouco de nós
Vai-se um alimento antigo
Que nos torna ainda mais sós
BOM ANO COM BEIJINHOS E ABRAÇOS DESTE VOSSO AMIGO.
Mário Manso