quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O QUE OFUSCA A DISCIPLINA

O espírito de corpo, a lealdade, a camaradagem, e solidariedade, são valores que fazem parte da estrutura moral dos Fuzileiros, mas, quando por desconsideração dos homens, esses portes determinaram rebeldias e ofuscaram por vezes, a tolerada disciplina; que por regra, se queria cega, surda, e muda. Quando foi preciso defender princípios, mesmo que nem sempre bem ajuizados, ”por falta de tempo” a ética foi sempre determinante quando esteve em jogo a dignidade humana, ou a sobrevivência de direitos mais alargados, a que nos julgámos com direito.
É assim, que surge a resposta a uma continuada diferenciação no tratamento dado a todas as praças, (Grumetes Marinheiros e Cabos os abaixo da linha de água) embarcados no fiel depositário Vera Cruz a caminho de “Angola é Nossa” com que nos iam encharcando os ouvidos, tentando mentalizar ainda mais a evidente ignorância, dos filhos de um povo sofredor e inculto.
A bordo, seguiam mais de dois mil e quinhentos homens, nas refeições servidas, só alguns eram tratados com dignidade, daí resulta, que ao terceiro dia de viagem ao almoço, o pessoal (menor) de Marinha embarcado, composto por um Destacamento de Fuzileiros Especiais mais uns quantos para rendição individual de outros Fuzos e ainda, um grupo de camaradas de outras especialidades destinados a substituir a guarnição de um patrulha, resolve não almoçar.

Ao desagrado que todos aqueles filhos da escola interiorizavam, era só preciso tirar a cavilha e fazer explodir a injustiça acumulada, sentida por todos; não tanto pela rapaziada do exército mas, entendia-se muito bem as dificuldades que eles tinham para tomarem uma qualquer atitude de desagrado relativamente à lavasquice que de forma continuada, nos apresentavam para comer sem qualquer alternativa e sem termos sequer direito, a recusarmos tragar aquela refeição tão discriminatória e até aleatória dos princípios, da mais elementar justiça. Reagimos e não aceitamos que de ânimo leve, conspurcassem a nossa dignidade.
Os Fuzileiros, tinham no seu grupo camaradas que já tinham alguns anos de marinha, um deles, tinha pertencido à guarnição do único navio que fez frente à Marinha Indiana quando da invasão de Goa de seu nome Manuel Garcia “o Vinhais” é com este camarada que de imediato me tentei envolver, pedindo-lhe numa primeira fase, para que, ele tentasse averiguar do que tratava o almoço nesse dia. Este camarada movimentava-se bem no meio do pessoal ligado à cozinha, tarimba que lhe advinha da sua veterania na Briosa. Aqui presto homenagem, e à sua memória.
A resposta quanto à ementa do almoço, surge de imediato, com a triste novidade de que era o mesmo que tínhamos comido, quando um grande número de rapaziada se não sentiu muito bem (muitos com desarranjos intestinais). Era mais uma vez aquele bofe. (o trivial para os cães de hoje) Tinha bala na câmara e o dedo no gatilho, e propôs-lhe não comermos, ele, mais maduro e mais consciente, (eu com os imaturos dezoito ele com vinte seis) diz-me logo que eu era maluco e que nem pensar, porque era muito grave e seria considerado um levantamento de rancho (o que em terra, leva à substituição do comandante) etc. etc. Mas os argumentos eram pouco convincentes, e tinham pouca lógica para desmotivar a minha indignação, e porque não estava nada de acordo com tão medonho pessimismo, continuei a sustentar os motivos. A minha ignorância tinha dois fortes aliados: a descriminação e ingratidão com que estávamos a ser tratados, é assim que de braço dado fui insistindo, argumentando das nossas razões! Estávamos praticamente no início da viagem, e seria muito mau para todos ter que aguentar aquela treta até ao fim, etc. etc. Tantos tiros lhe dei, que ele acabou por se render (no bom sentido claro) e aceitou alinhar na estratégia que lhe tinha sugerido, que foi, colocarmo-nos nas partes laterais da escada que dava acesso à sala de jantar por onde passava só a plebe, e ali passarmos a informação a todo os Filhos da Escola, ninguém come, ninguém come repetidamente, eram apenas as palavras que cada um de nós ia dizendo aos camaradas, que nas escadas de acesso à majestosa sala de refeições iam passando por nós, e a quem cabia preencher as primeiras mesas daquela grande sala de jantar que ia de bombordo a estibordo e onde comia quase um terço de cada vez, da grande maioria do pessoal menor dos Militares embarcados.
Ninguém comeu absolutamente nada e o nosso descontentamento estava demonstrado. Entretanto, não deixou de haver algumas situações caricatas como por exemplo, soldados a pedirem-nos algumas coisas ou mesmo, um dos nossos a querer comer a fruta (que até era boa) mas, estando ao meu lado, lhe prometi de imediato um murro no focinho se ele o fizesse, e foi assim que se conseguiu dar voz a todos aqueles autistas por imposição, mas conscientes da razão de que pelo menos na guerra, todos deveriam ser mais idênticos. Porque para além dos galões, das divisas e de todas as hierarquias, todos eram homens mais ou menos iguais a nascer. A morrer, ninguém podia saber, mas porque não, iguais no comer?!
O que se passou logo que a notícia chega aos ouvidos do Comandante Bandeira, foi de imediato, sermos convocados, para formar junto à saia da chaminé, local destinado ao pessoal de Marinha embarcado. Prontamente, aparecem os responsáveis e todos os outros figurantes, que não se propondo fazer qualquer representação, apenas queriam colocar em cena o direito à indignação, resistindo à humilhação sem qualquer presunção. Por isso não aceitámos as insinuações com que nos quiseram vergar, mesmo quando o Cmdt. da nossa unidade tentou aliciar, alguém que quisesse ir comer, dizendo que saísse da formatura. Ninguém vacilou, não houve passos em frente e muito menos à retaguarda. No entanto, pelo respeito que nos merecia e merece ainda hoje passados quarenta e quatro anos o nosso Comandante, aceitámos ir ao refeitório fazer que comíamos, depois de nos ter dito que tentaria que se alterasse a situação, fomos, mas apenas misturamos a comida.
Se o objectivo não foi totalmente conseguido, obtivemos seguramente, um olhar diferente de outra gente, que nos julgara mais indigente, e a camaradagem, ficou mais consistente. Se no mar alto as hostes abalaram, também os inteligentes golfinhos, nos saudaram.
Como muitos outros, o meu Cmdt. foi um grande condutor de homens, disciplinado e disciplinador, a quem nunca vi indícios de medo, e incutia muita confiança aos seus homens, onde o barómetro da moral se mantinha sempre em alta. Não é, uma análise de conveniência porque não tenho estatuto para ser promovido ou destituído, se não me castigou, quando podia e sem dar contas a ninguém, não seria agora que o iria fazer. Com ele fiz duas comissões, e mesmo já fora de prazo, faria a terceira, porque os valores de camaradagem que uma guerra propôs a muitos de nós, foi apenas e quase só para a grande maioria, a grande dádiva, que vai perdurar entre Comandantes, Sargentos e Praças, para todas as suas vidas.

O Esquelas e o Vinhais, como todos os seus iguais, foram leais, mostraram dignidade, camaradagem e espírito de corpo. Deu para ver quanto a união faz a força. Não comer é triste, mas é um direito que a todos assiste, quando a desconsideração insiste, a indignação resiste, e é também para isto, que a dignidade humana existe.
Pena é, que o homem, não saiba em conjunto, utilizar a força que tem dispersando-a muitas vezes de forma tão pouco dignificante.

Um povo humilde e inculto, é sempre mais moldável até na hora do indulto, mas quem não reage ao insulto?

3 comentários:

Vítor Costeira, 755/77 disse...

O que faz falta é avisar a malta, o que faz falta...
O que faz falta é alguma disciplina e muito respeito (pelos outros e por nós próprios), que os Homens aprendiam o que era no antigo Serviço Militar Obrigatório.
Não sou apologista da repressão e muito menos da opressão mas que a tropa tinha muitas virtudes na formação-base dos Homens, lá isso tinha!
Obrigado por teres voltado a escrever mais uma crónica do Esquelas e Amigos. Eu até acho que essas peripécias verídicas dariam uma bela Banda Desenhada para os putos se aperceberem, um pouco, do muito que estão a perder!

mário manso 17289/8873 disse...

Estou de acordo amigo Costeira! Há valores que se estão a perder com grande ligeireza e infelizmente, não há quem controle esse excesso de velocidade. Sabes Filho da Escola: como todos vamos assistindo, de algum tempo a esta parte, cada vez mais, são menos, os bons exemplos, que podiam moralizar e galvanizar as pessoas, especialmente os mais jovens. Acabar com o serviço militar obrigatório não foi bom, quem por lá passou, sabe quanto a disciplina Q.B foi importante para a sua formação. Cada vez menos, o respeito e a humildade, é pedra basilar, que alicerce a formação da sociedade. Se é ou não, reflexo do deixa andar de um estilo de sociedade sem responsabilidade e sem moralidade, não sei! Mas as pessoas amantes do bom senso, da segurança, da justiça, da paz e do bem-estar para todos, estão a sentir-se encurralados e isso, pressente-se a cada momento. Mas os usurpadores vão continuar a ter quem lhes dê o amém mesmo dos que não sabem rezar, e os outros, vão ter que gramar, sem poder barafustar, porque os meios com que vão amordaçando as pessoas, cada vez está mais sofisticado. Mas é preciso lutar, contra esses “iluminados” que tanto lixo faz, sem que para isso tenham sido mandatados. (Contem comigo abstendo-me)

António Garcia disse...

É com enorme orgulho que leio estas linhas.
Eu sou filho do "vinhais"atras mencionado e o 'espirito de corpo" eu aprendi em casa e hoje tento passa-lo aos meus filhos.
Obrigado por estas linhas um abraço