quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

MEMÓRIAS DO ARQUIVO



Já fez quarenta anos que regressei da minha segunda tranche na guerra colonial.
Tinha vinte e três anos, sete anos de Marinha, e quarenta e sete meses teimosamente vividos e sofridos numa tentativa que se previa em vão.
Era uma guerra com igual características, já antes experimentada e abandonada por países, muito mais poderosos que Portugal.
Dos soldados portugueses, poucos eram os que entendiam a expressão de uma guerra que à partida estava perdida. Os combatentes que serviram os ideais do poder político instituído foram uns heróis, muitas vezes mesmo, uns super homens.
Mas não foi só no terreno dos três teatros em que conflito estava instalado, que tais homens, na sua grande maioria, foram colocados à prova de forma pouco honrosa, por muito dolorosa, e pouco respeitosa. Foi assim sem exagero que se traduziram muitas das viagens dos que foram e dos que voltaram. Infelizmente, em nenhum caso, regressaram todos os que embarcaram. É pois, a razão sem negação da minha razão, acreditem nela ou não.

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Viagem de compensação pelo fim da missão

Vou tentar, sem imagem, fazer uma abordagem,
sem VIlanagem, como vi e senti, esta viagem...

Julgo que não foi só a pressa de chegar, que nos levou a embarcar de Luanda para Lisboa sem nada questionar, numa coisa que era tão boa, e que nem tinha um nome á balda, chamado Ana Mafalda.

É o que quero aqui recordar, a quantos tiveram a coragem de tal percurso suportar, com a miragem de à Pátria regressar.
Foi uma viagem que não nos honrou, mas em que muito se sofreu e lutou, contra um inimigo que não aparecendo, disparando ou matando, nos ia torturando, porque o mar não estava doce ou mesmo brando, e à medida que o tempo ia passando, cada vez mais nos asfixiava, e os nervos de todos arrasava.
Bem nos podíamos ter recusado embarcar, ao não se colocar a hipótese de tal solução, não foi por falta de razão, mas pelo respeito e admiração que sempre tivemos pelo nosso comandante que não merecia tal negação.
Qual Titanic qual carapuça!.. Pobres daqueles passageiros, que fizeram parte da sua viagem inaugural, que se julgaram os maiores, porque inauguravam o maior e melhor paquete do mundo, afinal quase todos morreram.

E que ignorantes foram, todos aqueles que nos anos sessenta, fizeram cruzeiros à volta do mundo, pensando certamente que o faziam, nos melhores paquetes da época.
Tristes incultos - coitados!.. não tiveram o privilégio de viajar num barco de carga à balda, de nome Ana Mafalda, ou mesmo no Niassa seu comparsa. Felizmente, que lhes foi vedada essa hipótese, porque assim, muitos milhares de homens despidos de arrogância mas fardados de orgulho; não foram privados, de fazer inesquecíveis viagens em transatlânticos de tão alto gabarito, onde até reinava, quem diria, muita nostalgia sem aqueles gritos de alegria a que uma viagem de regresso normalmente conduziria.

E falando do barco Ana Mafalda, a que chamavam navio, mas que por graça, quem dele se serviu, até lhe chamava barcaça sem propósito de chalaça, e que, quando encostado ao cais, se a maré estava vazia, quase não se via, assim que a maré ia enchendo, ele lá ia aparecendo todo vaidoso e engalanado, devia ter sido mesmo amaldiçoado, para assim ser utilizado era um monstro mal abençoado, muito mal arquitectado, e pouco adequado, para quem tinha passado dois anos, longe de tudo e todos a quem muito se queria, sem mais poder ver quem morria, quem nascia, ou mesmo aconchegar a roupa ao filho que dormia. (alguns diriam com ironia e ingratidão, que foram uma férias à maneira, bem descansados, debaixo da bananeira, bem saciados do que melhor havia, e com hipocrisia alguém diria, que, nem sequer se morria.!!!)

Quem não lembra com nostalgia, aquele dia em que, frente ao Tenerife todos estávamos a ver que o herói as ondas não ia vencer, porque ritualmente a ilha se deixava de ver, e sempre que de frente contra as ondas se empinava, logo nas seguintes se afundava, era uma luta tão árdua, que até o hélice fora da água trabalhava, e quando a noite se apresentava carregada de um luto resoluto, e o mar estava bruto, até nos fazia pensar que ao puto não íamos chegar.

Mas felizmente para tais primatas que no mar lançaram, que os piratas que outrora o mar sulcaram, acabaram, porque tropas com tal moral, qualquer abordagem ia resultar mal, e desculpem insistir, mas nem uma fisga tínhamos para resistir, ou local para fugir.

Mas se acham que chega de palavras tão pouco amáveis ou mesmo intragáveis, vamos lembrar coisas mais agradáveis, por ventura, mais saudáveis! Quem não recorda todo o esplendor daquele convés tamanho, onde se perfilavam as casas de banho, que com um cheiro assinalável, sendo um local pouco invejável, era muito desejável para quem lá precisava de ir, mas que, imediatamente lhe apetecia fugir, será que por ser um sitio onde tudo estava bem, e nada se encontrava mal! É que, mesmo com dor de barriga, os intestinos numa briga, ou a bexiga a rebentar, mais valia aguentar, e com um discreto olhar, fazer directamente para o mar. Mas tornava-se num tormento, tinha-se que estar sempre atento, não fosse alguma piranha com manha, saltar e a minhoca abocanhar, e é bom de prever o que ia acontecer, com o brinquedo tão chocho e frouxo, não dava para entreter, porque a ninguém dava prazer, e a madrinha de guerra que se tornara namorada, não tinha nada, que a fizesse sentir compensada por tanto ânimo e escrita dispensada.

Tudo estava previsto, bem sei, mas eu não desisto e insisto uma vez mais, de que em tal transporte, que não é imaginário, qualquer Veterinário, não permitiria o embarque de outro tipo de animais.
Banho não havia, a não ser quando chovia, tomado na água empossada nos oleados que então cobriam as bocas do porão, onde no seu interior reinava a confusão, e a grande maioria fazia que dormia, com uma forte dose de agonia, que a muitos envolvia, prenda que ninguém queria.
Qual primitivo! Era apenas um camarote colectivo, que por ser tão selectivo, lá se metiam mais e mais, que não sendo propriamente animais irracionais, era tratados como tais, como se fossem filhos, que não tivessem pais. E isso foi demais.

Não recordo se havia refeitório ou não, mas se existia, do dormitório devia ser irmão. Quem não lembra com orgulho, aquelas refeições com feijão cheio de gorgulho, que provocava uma verdadeira guerra intestinal, que por vezes nos fazia sentir tão mal, desencadeando um verdadeiro tiroteio, e o cheiro que impregnava a zona, não era de perfume, mas sim do azedume do vomitado de algum coitado, que continuava deitado de tanto enjoado, e desde que no navio entrou, nunca mais o mar olhou.

Do bom manjar que lhe era dado, pouco ou nada ele comia, de tão almariado. E para estes, o tempo nunca mais passava, porque nada ajudava, o barco pouco andava e só balançava, o enjoo não passava, e a maravilhosa viagem nunca mais terminava. Mas o que mais se desejava, era que o artista não parasse, e algum amargurado pensasse, por ter acordado estremunhado, que o tormento tinha acabado, e ao mar se atirasse,
pensando ser o cais onde alguém o amparasse.

Também no Titanic, onde nada faltava, e nem sequer se enjoava, porque até em cima de uma mesa se dançava à grande e à francesa, lembro aquela beldade que no convés o vento fustigava, e que por pouco ou nada ao mar se atirava, valeu-lhe na hora decisora, uma mão salvadora. Mas no Ana Mafalda se o milagre existiu!.. ainda bem, mas nenhuma senhora se viu, nossa ou de alguém.

Não é uma tentação, mas quem viu, é fácil chegar à conclusão que também no Titanic a viagem foi até à exaustão, mas coitados! só lhes faltou dormir no porão, o que para nós, foi uma especial distinção, e da qual guardamos imensa gratidão.

Mas, eis que alguém, com uma voz rouca que mais parecia do além, á boca do porão grita, terra á vista!., não é sonho não!!, venham ver se a certeza querem ter. Até que enfim, exclamaram alguns com o coração amargurado, e de tudo já saturado, mais valia vir a nado ou de bote, mas tivemos pouca sorte.
Mas, alguma compensação acabou por existir, porque até viajamos sem passaporte, o que é estranho, tal empenho, porque mesmo na carga a granel, tem que haver sempre um papel, chamado carta de porte. Não fomos apanhados no mar alto, porque terão pensado que íamos a salto. Merecíamos outra consideração ao fim de uma comissão em que todos fomos iguais, não foi justo, sermos transportados que nem animais. Merecíamos mais.

Ainda não havia sol, mas é a nascente que nos aparece a ponte, quase em cima do cais, de onde se vêem os sinais, de alguns lenços, com os quais, as lágrimas, dos que chorando, iam limpando, é a angústia de quem desespera, de tanta espera. Aproximava-se a hora de desembarcar, mas era esquisito, porque o dito, não havia meio de atracar, e todos ansiávamos por aquele pessoal abraçar, o que estava bem difícil de concretizar.
Terminada a viagem frustrante naquele casco flutuante, finalmente a entrada, que se esperava triunfante, mas em vez de entrarmos de frente para aquela gente, surge o último revés, talvez por causa da maré, ou do calado do malfadado, entramos de marcha a ré.
Não fora todos aqueles homens em bicos de pés, naquilo que era chamado o convés, e toda aquela gente feliz e crente no cais, ia pensar que era demais, porque um barco fantasma estava a chegar. Mas para quem a viagem foi uma eternidade, ainda soube no fim, ter alguma dignidade, mostrando capacidade, para continuar a luta, disparando à bruta, sobre o inimigo dos nossos amigos, que era a saudade. Sentimento e instinto fraternal, em qualquer animal, seja ele qual.

Se esta brincadeira não foi totalmente entendida como verdadeira, desculpem a omissão pela pouca exactidão, mas é a minha visão e os argumentos da minha razão!.. Foi um olhar distante, duma viagem frustrante, numa coisa que era flutuante, mas de que ninguém ficou amante.

E para terminar, este fraco exemplar, que ninguém pretende magoar, estes versos vos quero deixar:

Não é disto que nos orgulhamos
Mas de coisas mais ousadas
É por isso que aqui estamos
Lembrando águas passadas

Turistas felizardos e sem mágoa
Sem camarote e numa boa
Debaixo da linha de água
De Luanda para Lisboa

Esta prosa não foi sonhada
Foram dias de sofrimento
A honra não foi estimada
E o militar não era jumento

Igualdade era uma mentira
Que se ia difundido
Medida que não se afira
É investimento perdido

Penalizou-se uma geração
Numa luta para perder
Foram sacrifícios em vão
Não assumidos pelo poder

Foi muita desconsideração
Que ainda hoje não enjeito
Por quem deu tudo à nação
Houve muita falta de respeito

Hoje já mais velhotes
Sentimo-nos rejeitados
Por um bando de coiotes
À ingratidão acorrentados
Beijo ou abraço sem embaraço
Mário Manso


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A FORÇA DAS PALAVRAS

NÃO SÃO NECESSÁRIAS MUITAS PALAVRAS PARA QUE NOS SINTAMOS RECOMPENSADOS.

As três linhas seguintes, foi o comentário à minha última postagem.

Valeu a pena a espera!! Depois de ler estas linhas, consigo acreditar que ainda há pessoas que se preocupam com o seu semelhante, e que a Amizade verdadeira não pode desaparecer. Bem haja Sr. Mário!

São estes vocábulos carinhosos com que nos envolvem e alimentam, que me fizeram fazer estes versos que envolvem algumas facetas da amizade a que se refere a Neyde Susana, e que por sua culpa, ofereço aos meus amigos neste fim de ano. Bem haja minha amiga.

A amizade foi determinante
Em muitos momentos da guerra
Sem ponderar cada instante
Fez descer homens à terra

Os amigos da vida militar
São mesmo muito especiais
E não é fácil aquilatar
Porque diferentes dos demais

Houve momentos na guerra
Por incrível que pareça
Que tornou o homem fera
Sem que amizade se esqueça

Colocaram a vida em perigo
Sem por isso darem conta
Estando em causa o amigo
Tudo e todos se confronta

Há amigo que não se esquece
Não pela sua beleza exterior
Porque aquilo que enriquece
É o que lhe vai no interior

Bonitos por fora lindos por dentro
Sempre e em qualquer momento
É nesses que mais me concentro
Com que meu espírito alimento

Quando morre um amigo
Morre um pouco de nós
Vai-se um alimento antigo
Que nos torna ainda mais sós
BOM ANO COM BEIJINHOS E ABRAÇOS DESTE VOSSO AMIGO.
Mário Manso

sábado, 27 de dezembro de 2008

DE NOVO O FUZILEIRO LAU.





Não fora os fuzileiros, e coisas agradáveis há, que nunca não seriam vividas.



Vem isto a propósito de um encontro que há dias tive com um camarada a quem rapidamente dispensei uma admiração muito especial. Trata-se do nosso camarada e amigo Lau, pessoa de tão afável que é, nos leva sem reservas a coloca-lo naquele pedestal que reservamos, só a algumas pessoas. Tinha-mos como principal objectivo, participar no jantar de natal do núcleo de fuzileiros do porto, aproveitei levar um CD do José Campos e Sousa, que me tinha sido por ele solicitado. Não tendo a certeza de o encontrar no evento, envolvi os outros dois que faziam parte do trio que representava da Associação de Fuzileiros, “o Dr. Ilídio Neves e o Sarg. Couto”, propondo-lhes uma visita ao camarada ainda não conhecido pessoalmente por eles, ao que de imediato acederam. Surgiu entretanto um problema: o contacto tinha ficado em Lisboa. Mas como se aprendeu nos Fuzos, que os objectivos são para conquistar, não baixámos os braços e acto continuo contactei um outro camarada, que vivendo na sua área me podia servir de guia para o propósito em causa.



A estratégia resultou em cheio porque mesmo não sabendo de tal criatura, ia tentar desbravar a mata que nos estava a dificultar a progressão, passado poucos minutos, chega-nos a informação de que um outro camarada de nome Pinto conhecia o seu estabelecimento. Sugeriu-me que fossemos ter com ele a uma sociedade em Vila Nova de Gaia (Rechousa) que dava pelo nome de Associação Recreativa de Canelas.



Fomos ai recepcionados, por seis camaradas que entusiasticamente nos receberam, levando-nos de imediato a conhecer as instalações, tendo como agradável surpresa um espaço privilegiado muito bem decorado e acolhedor onde se enfatiza o orgulho de Fuzileiro. Daqui lhes endereço os meus parabéns, porque vai certamente congregar e reactivar outros camaradas da região.



Entretanto, fomos convidados para ir com eles almoçar, o que foi aceite, dado que estava a chegar a hora. O almoço foi recheado de um menu tal, para o qual, nem é preciso ter apetite. Algo falhou no fim do repasto o que não é normal acontecer nos fuzos, que foi, quando se tratou de pagar o que era nosso propósito, não nos deixaram, mas nem sequer permitiram que fossemos solidários.



Depois destas simpáticas emboscadas, progredimos decisivamente para aquele que era agora o objectivo primeiro, levar o CD ao Lau. O estabelecimento estava fechado, mas rapidamente se ultrapassou o obstáculo e passado pouco tempo estamos no objectivo. Fomos recebidos com uma alegria incontida. Primeiro pelo Peniche, seu cunhado, depois a esposa do procurado um pouco perplexa, chama pelo marido, enquanto a sossegava de que não se tratava de nenhum assalto! Ao fundo aparece o nosso camarada, transbordando de alegria que quase o sufocava.



Por sua causa, estavam ali reunidos onze Fuzileiros, o que para ele era impensável que alguma vez pudesse acontecer. O que se seguiu, foi por todos os presentes, vivido de forma especial, contagiados que estavam por toda a alegria que o Lau a Esposa e o Peniche irradiavam. São momentos que raramente se vivem tão intensamente.



O facto de lhe interromper-mos o seu preparo para participar no evento do núcleo do porto, para o qual é necessário uma programação atempada, não o deixou atrapalhado transpirando uma evidente preparação de Fuzileiro.



São estas as verdadeiras lições de vida, que nos tornam muito pequeninos, porque o Lau é um gigante.



Admiro tua força de viver
E a alegria que nos ofereces
Porque conseguiste sobreviver
Da tragédia que não esqueces

Ser teu amigo é regalia
Nem de todos ao alcance
Teu sorriso tem magia
Como música que se dance

Um abraço anfíbio deste camarada Fuzo.

Mário Manso

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

PARA TUDO HÁ UMA PRIMEIRA VEZ:



No encontro nacional de Fuzileiros deste ano, “2008” mais uma vez, tal como outros camaradas, andei ocupado nas tarefas que me tinham sido confiadas, e lamento não ter disponibilidade de tempo para poder dar mais atenção aos filhos da escola que gentilmente mostravam interesse em conversar comigo. Se há coisas que gosto, é a de falar com todos aqueles que mostram algum interesse para um salutar bate papo e muito especialmente, sendo da família Fuzileiro. Mas este ano, aconteceu uma coisa que muito me sensibilizou. Depois de terminada a minha última tarefa na coordenação dos meios aquáticos, “anfíbios” e ao passar na zona em que se reunia o pessoal que veio de autocarro do núcleo do porto, abordei um camarada de armas, que numa cadeira de rodas ali esperava pelo embarque de regresso ao porto, estava acompanhado da sua esposa e do cunhado Peniche, também Fuzileiro. A hora do reembarque aproximava-se, e a conversa não podia ser longa, mas das breves palavras trocadas deu para ver da enorme e emocionada satisfação que aquele camarada reflectia. O contentamento era muito grande por ter voltado à nossa Escola que tanto contribuiu para ser o homem lutador que é, e logo ali prometeu que para o ano cá estaria de novo. Foi bom conhecer mais um elemento da família fuzileiro, neste caso particular, a quem o azar bateu à porta de forma muito violenta. Deixou-o com muitas limitações físicas, mas não abalou o seu orgulho de ser FUZILEIRO. A força anímica como enfrentou o infortúnio, resultado do acidente que o vitimou, é uma lição de vida. Também por isso, fazes parte do nosso orgulho e dos nossos valores. Fiquei logo, um pouco impressionado com aquele contacto, mesmo sem termos abordado as razões que determinaram parte da sua actual dependência.
Para além de ser a nossa primeira troca de palavras pois nunca o tinha visto, algo ficou para desbravar e pensei que iríamos estar muito tempo sem nos voltarmos a falar. Passado uns tempos do evento, recebo uma carta e que também, não esperava tão amistosa. Não foi certamente, apenas, por lhe ter dedicado alguma atenção!
Cada vez mais, me arrependo menos, de não me limitar no contacto com os camaradas da minha “nossa” guerra, mesmo sendo a primeira vez. O exemplo deste e outros primeiros contactos, contribuirão certamente para ajudar no futuro a ultrapassar algum eventual constrangimento de parte a parte. E quem sabe, se com a atenção que dei a este Filho da Escola, não terei contribuído para suavizar a falta de ligação que ele sentia em relação à família Fuzileiro!
Espero sinceramente, que esta postagem, pelo menos ocupe com prazer, “quem sabe” uns minutos da tua vida!


AQUI TE DEIXO UNS SIMPLES VERSOS, QUE MESMO REFLECTINDO MAL O QUE ME VAI NA ALMA, É O QUE TENHO PARA SELAR UMA AMIZADE.

LAU NOME DE GUERRA

És Homem com sentimentos
Com muita vontade de viver
Depois de tantos tormentos
Nunca te deixastes abater

Quero-te pois agradecer
Seres o fuzileiro que és
E também reconhecer
Que não te afogas em marés

O pouco da tua história
Que eu fiquei a conhecer
Enriqueceu-me a memória
E jamais a vou esquecer


A capacidade de luta
Que conseguiste conquistar
Deu-te uma força resoluta
Que não te deixou despistar

O teu ânimo é espectacular
Tem atitude e perseverança
Nunca te deixaste anular
E tiveste sempre esperança

Um fuzileiro nunca desiste
De lutar arduamente
E se a dificuldade persiste
Enfrenta-a e vai em frente

Valeram os ensinamentos
E a tua força interior
Para vencer sofrimentos
E não te sentires inferior

És forte e determinado
Tens valor és positivo
Não tens o espírito minado
És um exemplo construtivo

Do Amigo Mário Manso

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

RELEMBRANDO


Certo dia quase se morria,

pela água que não se bebia.


Agora a uma distância de dezenas de anos, até sabe bem lembrarmos as dificuldades porque passámos. Para tanto, basta compararmos a falta de água para beber, e de um mediano petisco para comer, com aquilo que hoje conseguimos; ter.
Muita coisa aconteceu, e algumas vezes, por pouco se não morreu. Foi lutando pela sobrevivência, em completa carência de meios para satisfazer a mais elementar necessidade, que sem resquícios de vaidade se lutou contra o abandono a que éramos sujeitos. A guerra, tem muitos momentos, que são autênticos tormentos, e só existem porque quem os provoca, nenhum sofrimento lhes toca. Nos gabinetes, onde bem acomodados e melhor acompanhados, em que tudo existe à fartazana, nunca a guerra é uma tirana. Quem se lixa é a lagartixa, que rastejando neste mundo imundo, pouco ou nada se importava que fosse ao fundo.
Mas afinal que democracia é esta, que para a grande maioria, não presta? Custa constatar, que são os próprios ao votar, que se estão a tramar e depois, começam a choramingar porque a uma vida digna, não conseguem chegar, nem sequer enxergar.
É tudo muito complicado neste globo de enjeitados, em que só uma minoria, são considerados. Sinceramente, por esta forma de política, não me sinto apaixonado.
Mas afinal, não era por esta picada, já muito trilhada, esburacada, e sem regras nem nada, que eu vos alvitrei como estrada.
Vou voltar ao cruzamento, onde me descuidei e enveredei ao som do vento pela estrada errada que não conduzia ao azimute que me leva àquele tempo de muito sofrimento.
Vou-me situar, e sem exagerar, falar-vos duma peripécia vivida na guerra do ultramar. Vencíamos o ano de mil novecentos e sessenta e quatro, e a certa altura, com grande aparato damos corpo e alma a mais uma caça desvairada, ao “inimigo” que povoava uma zona de que se não conhecia nada, afinal despovoada. A zona não oferecia condições de sobrevivência logo, as populações não se instalavam, em locais de tanta carência. Uma das mais importantes para sobrevier é a água, sem ela cedo acabamos por morrer. Mas os eruditos estrategas no aconchego dos tais gabinetes, sem qualquer mágoa mandavam homens para onde nem sequer havia água, importavam-se pouco ou nada, com as dificuldades da rapaziada. Foi sem os apoios que aquela nomadização impunha, que um grupo de vinte homens, avançaram para cumprir com brio a missão que lhes foi confiada, sem questionar nada. A reserva de água era o cantil de cada um, sendo que as necessidades eram variáveis entre os elementos do grupo havendo um ou outro com mais necessidades. Não era o meu caso porque o Esquelas, era muito contido na utilização do precioso líquido, como tinha sido prática no curso, e como a carne não me pesava, aguentava mais que outros .
Decorriam já dois dias e duas noites, e a pequena dose do precioso líquido, tinha sido consumido e as forças eram cada vez mais débeis, mais ou menos, todos os homens daquele grupo estavam a ficar nos limites. Mais uma noite se aproximava, e a boca de alguns amargava, pelo capim que um e outro mascava. Alguns camaradas havia, que já não articulava palavra, nada se via e ninguém dormia, esperando pelo novo dia. A situação estava complicada, entretanto, dois voluntariosos e inconformados Fuzos resolveram dar uma vista de olhos pela zona que os envolvia, não fosse o diabo tecê-las. Valeu a pena, porque encontraram aquilo que teria sido um charco agora sem água, restava apenas terra húmida com cavidades à mistura. Era nada mais nada menos que um local, onde os elefantes desesperados procuraram água, então, fizeram buracos com a tromba onde retiraram algum líquido, ao mesmo tempo que no local despejaram a bexiga. Foi neste chavascal imundo que se conseguiu amenizar um pouco a falta do precioso. Foi com as latas da dolca da ração de combate, que atada a um fio de tropeçar que levávamos ao fundo dos buracos retirando algum produto. É claro que o problema continuava instalado, mesmo mal visto por todas aquelas almas penadas, não os abandonava. Restava-lhes esperar pela manhã para pelo menos, mascar algum capim ensopado pelo cacimbo da noite, e tentar encontrar algum local com água que saciasse todas aquelas bocas loucas de secura. Foi muito cedo, ainda mal se via que começamos de novo a rumar na direcção que a bússola determinava. Os trilhos não existiam, fomos nós que por lá deixámos um imenso auto-estrada, bem sinalizada, mas sem portagens ou limites de velocidade.

A ligeireza com que nos deslocávamos era tal, que nada passava despercebido, e foi fácil detectar lateralmente, um charco onde vários esqueletos de animais o calcetavam, o que ilustrava bem, a falta de água na zona. Mais uma vez, tivemos que não ser esquisitos, e de imediato começamos “os que ainda tinham alguma energia” a escavar no limite circundante do lamaçal buracos, para permitir uma primeira filtragem e da forma já utilizada, lá se foi tirando algumas misérias para dar àqueles que estavam nos limites. O sol era escaldante e a grande maioria estava incapaz e prosseguir, então, o Russo e o Esquelas não conformados com aquela injustiça, resolveram ir ao encontro de umas árvores que ao longe diziam presente e nós lá fomos em frente. Em boa hora o fizemos, porque lá chegados, deparámos com um nascente que vomitava água cristalina, deixando-nos de tal maneira afortunados com aquele milagre, que de imediato, nos ajoelhamos e tal como os burros na minha terra, bebemos até mais não querer, depois, fizemos uns quantos tiros anunciando que algo tinha acontecido. Enchemos os dois cantis e viemos trazer aos camaradas que continuavam quase todos, no local onde os tínhamos deixado, depois de dividido irmãmente o precioso magnífico, recolhemos cinco cantis cada um, e fomos abastecer de novo. Ao voltarmos, fomos encontrando alguns na auto-estrada então já bem definida. Pouco tempo depois, as cenas foram impressionantes, se tivessem sido gravadas, e hoje vistas, ajudariam muitas pessoas, a terem outro comportamento por quem passou tanto tormento.

FOI UMA GUERRA ONDE SE MORREU E MATOU, SÓ SEI, QUE COMO EU ERA, NUNCA MAIS SOU.
INCOMPREENDIDOS E DESPREZADOS, EM CONSEQUÊNCIA, DO QUE NÃO FORAM CULPADOS.
IGNORAM AS PESSOAS, SEUS DIREITOS E RAZÕES, COMO SE O SOFRIMENTO, FOSSE APENAS ILUSÕES.
UM PAÍS QUE NÃO ACARINHA QUEM POR ELE LUTOU, SÓ PORQUE NÃO DESERTOU, NÃO EXISTE ACABOU.

Um forte abraço.
Mário Manso

quarta-feira, 23 de julho de 2008

MESMO SENDO IRRISÓRIA, NÃO DEIXA DE SER HISTÓRIA

LEIAM ESTA PROSA, COMO DE UMA PINTURA ABSTRACTA SE TRATASSE.

As potencialidades da juventude
É uma nascente inesgotável
Com mais ou menos virtude
Será sempre água potável

Certo dia, do ano de 1966, dois jovens Fuzileiros encontravam-se de licença na bonita Cidade de Luanda para mais umas horas de descontracção. Por lá iam andando, olhando e observando aqui e ali, umas borrachonas que paradas ou em andamento, eram uns portentosos encantamentos. Algumas até, um autentico deslumbramento, que por momentos, até lhes atormentavam os pensamentos.
Tal como na mata, onde se vive, se morre ou se mata, também naquela clareira que era a Mutamba, aqueles jovens Fuzos rapidamente se aperceberam ter caído numa simpática emboscada, ao sentirem-se flagelados por quatro lindos olhos de duas (MG miúdas giras 42 de cintura) que apoiados nos seus bipés muito bem torneados lhes criavam uns calafrios na espinha, provocando de imediato, as suas armas de tiro simples, que mesmo não tendo sido faxinadas há muito tempo, estavam prontas a responder a qualquer intensidade de fogo, mesmo que as adversárias fossem teimosas na sua conduta e de forma tenaz e resoluta atirassem mais fruta, seriam vencidas na luta.
Divagar um pouco, pode ou não, servir, o objectivo que se quer atingir, mas neste caso, que quase tudo vai ficando fora de prazo, também esta prosa lhe dá azo.
A clareira da Mutamba está cheia de combatentes de ambos os sexos, (tal como eles, umas mais bem armadas que outras) alguns tentam o combate gay, outros tentam o oposto, as sem barbas no rosto, imaginando-se apenas com o que não está exposto, que acariciada com gosto, até provoca prazer e rosetas no rosto, está bom de ver.
Aqueles dois Fuzileiros estavam dispostos a deixarem-se apanhar à mão, mas o mais hipnotizado e introvertido, desabafa dizendo: Já vistes bem aquelas duas garinas? Que borrachos de papo cheio! Comenta o camarada mais atrevido: então tu achas que eu sou cego, ao ponto de não ver aqueles dois monumentos! Haja Deus diz o outro. Mas tu queres que eu, te as apresente, diz-lhe de imediato o mais atiradiço.
É pá deixa-te de tretas, estamos aqui há apenas meia dúzia de dias, ainda só saímos duas vezes e já as conheces? Pergunto: queres conhece-las ou não? Eu não me importava nada, mas aquilo não é peixe que morda o nosso anzol! Quem sabe, se não quererão experimentar uma minhoca bem iscada e fresquinha, acabada de chegar do puto! Com a vantagem de ser disponibilizada a custo zero, por dois pescadores inexperientes! “mas em potencia máxima” Vamos então a elas, mas não digas nada, até eu te as apresentar ok?
Sem o passo acelerado a que estavam habituados desde a recruta, avançaram sem medos para o confronto que se esperava, ser apenas, uma troca de galhardetes sem mazelas imediatas, a não ser, eventualmente, umas palavras menos próprias, mas, das bocas tão sensuais daquelas donzelas, era pouco provável que acontecesse.
Com o cenário montado, havia que dar inicio ao primeiro acto. Um pouco mais distanciados do que aqueles centímetros que os podiam comprometer, o artista principal, iça o seu membro superior direito, como mandam as regras, (o outro, estava no bolso das calças contendo algo, que de cabeça perdida, não se conformava, desejoso que estava, de também entrar em cena) franqueando-o, àquela que lhe pareceu ser a mais destemida, dizendo-lhe: Ora viva! Como está? Muito prazer Mário Manso. Com uma voz melodiosa e sensual retorquiu: Igualmente, Chucha Insatisfeita. Vai tudo bem convosco? Resposta imediata: sim está tudo bem. Acto continuo e sem dar hipótese à sua beligerante de meter bala na câmara, aperta a mão da sua colega que deu pelo nome de Dora, que já disponível lha oferecia para um primeiro contacto e que também, de forma muito simpática e suave, lhe a estreitou de tal feição, que mais foi uma carícia, que um cumprimento.
Entra em cena o segundo actor: apresento-vos o meu camarada e amigo, que também rapidamente simpatizou convosco. Dito isto, a mais reguila e insatisfeita, avança para o confronto perguntando: Mas de onde é que nos conhecemos? Só nos conhecemos daqui não é? De imediato, o guia respondendo ao fogo diz: pois, de facto não nos conhecíamos o que da nossa parte lamentamos! Mas agora já! E será que há algum mal nisso? De maneira nenhuma! A vossa abordagem foi de facto interessante, não foram inconvenientes, e até são muito simpáticos! E não digo bonitos, para que não fiquem vaidosos!
E desataram a rir com gosto com aquele timbre de gostosas. Os dois Filhos da Escola, um pouco convencidos, associaram-se àquele momento hilariante, dando-lhe também umas quantas notas de boa disposição.
Muito obrigado, mas vocês são muito mais que simpáticas. Isso é dos vossos olhos que também são bonitos, disparou a mais desenrascada.
Como diria o nosso compadre Alentejano, isto é que está aqui uma açorda! Os Fuzos, analisando rapidamente a situação, concluíram que tinham caído na zona de morte, e o potencial de fogo, para além de forte era destemido, então tinha que valer tudo, porque alguém tinha que sair vencedor. Estava o baile armado. Era preciso dançar ao som dos acordes, que chegavam daqueles portentosos instrumentos, que à sua frente, de forma carinhosa e quente, lhes entravam nos ouvidos e toldavam a mente, já pouco decente. Entretanto, elas começaram a segredar, ao mesmo tempo que se riam com gosto. Os machos latinos, pensaram logo que haveria por ali, alguma troca de palavras eróticas, e ficaram envolvidos por pensamentos estranhos que sem qualquer pudor, as começavam a despir. Era uma tarefa fácil afinal, até não dava muito trabalho porque as roupas eram poucas, e acima das primeiras dobradiças havia mais de um palmo, que não tinha protecção e os peitos, sem os artifícios de hoje, não enganavam e provocavam uma grande?… desorientação pois claro! Se pensou em outra coisa, valho Deus.
O tempo passava depressa e dois já machibombos tinham partido sem que aquelas dependentes tivessem resolvido partir. Os dois interlocutores tiveram a gentileza de as alertar, que mais um transporte estava a sair, mas logo disseram que pouco importava porque o ambiente estava interessante e tinham muito tempo. Assim sendo, a conversa continuou, fazendo-se algumas abordagens, quase sempre por bombordo porque sendo o lado do coração, a hipótese de bons resultados são sempre maiores!
Era já tarde e a hora de ponta estava vencida. Agora com muito menos assistentes e menos curiosos, tornaram-se ainda mais desinibidas, e a questão era incontornável, e mais cedo ou mais tarde com mais ou menos morteirada, havia de se voltar à razão do porquê, de Chucha Insatisfeita, porque até eram duas palavras que se entrosavam bem e para mal dos pecados, daqueles depravados, só contribuíam para serem assaltados por pensamentos ingratos. Olhe uma coisa: como é que lhe deram um nome tão desadequado, você que é uma moça tão feliz e satisfeita? Já não falo da Chucha, porque quanto a isso por aqui me fico dizendo: é uma coisa onde se pode mamar não é verdade? Sinceramente: se assim é, não importava nada, de voltar a bebé.
Como é que pode garantir que sou uma pessoa satisfeita! Bem: a essa questão podia-lhe responder de duas maneiras, mas prefiro dizer-lhe apenas, que se em algo poder contribuir para que atinja a plena satisfação conte com a solidariedade de um Fuzileiro porque essa é, uma das nossas características. Olhe que gostei dessa resposta mesmo sendo um pouco erótica. Peço desculpa se por ventura fui inconveniente! Qual quê esteja à vontade, eu gosto das pessoas que sem serem malcriadas se sujeitam a dizer o que pensam. Entretanto, o outro camarada ia debitando alguma conversa, dando assim folga para que o pretenso declamador, arregimentasse uma quadreca qualquer, que desse alguma resposta à franqueza e espírito de luta, daquelas maganas. Aqueles dois bibelôs já estavam em Angola desde pequenas, eram oriundas do Algarve e amigas inseparáveis, desde a viagem. Era demais evidente e nem era preciso ser crente, para ver o que se tinha em frente. Então, fabricados que estavam os versos, é-lhes perguntado se não se importavam de ouvir, o que havia para lhes oferecer, a mais foliona disse logo, não me diga que é uma declaração de amor! Tudo depende como interpretar o que lhe vou dizer proferiu o declamador.

Este encontro inesperado
Que estamos alimentar
Deixa-me todo grudado
Ao que gostaria experimentar

Que coisas boas, tão fofinhas.
Bendito seja, quem vos mereça
Era bom, que fossem minhas
Para eu perder, minha cabeça

Nesta conversa brincalhona.
Em que tudo pode acontecer.
Não me importava de lhe ir à?.
Antes de consigo adormecer


Mais uma vez, emergiu uma rizada, gostosa e bem temperada, rematando a mais folgazona: não leve a mal a pergunta, mas de que cabeça está a falar? E a risonha sinfonia a quatro, voltou a impor-se. Depois, todos ficaram calados, e meios embaraçados. Gosto das pessoas que dão luta, e não vai ficar sem troco, só não sei, se vai entender, e se gosta da resposta. Força fuzileiro, sem medos, retorquiu a brincalhona numa boa. Então cá vai, espero que tenham estaleca, e me perdoem a falta da palavra queca.

Se for possível concretizar
Esta ideia maravilhosa
Pode ser antes de casar
Porque é muito apetitosa

Desculpem lá minhas queridas
Esta pequena maldade
Mas porque são aguerridas
Merecem esta frontalidade

Vale sempre a pena lutar
Por algo que dê prazer
Gostava de a conquistar
Para a poder satisfazer
Se quiser colaborar
Basta apenas me dizer

Encaixaram sem reserva e um pouco eufóricas disseram, que eram muito criativas e intuitivas. Já naquele tempo, havia pessoas sem grandes tabus e o que estava acontecer, era uma agradável surpresa, para quem estava habituado a tantas limitações. Senão, veja-se a reacção da artista principal. Dá um passo em frente e espeta dois beijos no focinho daquele incrédulo Fuzo, que de desorientado que ficou e se não fosse ainda dia, não se sabe o que aconteceria se a beijava se a?…. pois, logo se via!.

Os fuzileiros, são treinados para enfrentar as situações mais adversas, sem nunca escolher o meio ambiente onde possam ocorrer, para tanto é necessário haver antecipadamente algumas informações e reconhecimento das zonas onde se vai actuar, para assim se definir a estratégia mais adequada, deforma a vencer todas as dificuldades e conquistar o objectivo.
A luta em que entrámos está a dar muito gozo, e a poder-mos continuá-la, iríamos certamente despoletar sensações bem diferentes de outras, obtidas em outros tipos de confrontos. Não só, porque o belicismo das armas são diferentes, mas também, porque neste caso, basta que sejam estimuladas, para se evidenciarem e ficarem prontas a disparar, nunca ejaculando balas que possam matar, mas muito pelo contrário, dar vida, procriar.
De repente diz a Dora: é pá está a ficar na hora! Mais um pouco, não achas que o diálogo está interessante? Questiona a insaciável. Sim! Mas é muito tarde e os nossos pais já devem estar em cuidados! Diz o ponta de lança: isso só acontece, porque eles não sabem que vocês estão em boas mãos, e muito capazes de as levarem a casa inteirinhas mas se calhar, insatisfeitas. Melhor dizendo, deixando os quatro descontentes, porque depois de uma luta tão intensa, impunha-se saltar em cima do IN. (Interessantes Noviças)

Pena foi, que dos bons ingredientes que havia, nomeadamente, boas melancias, grelos, tomates e pepinos, não se concretizasse uma faustosa caldeirada.
Mas o destino, nem sempre é compreensivo ao colocar naquela clareira, onde quatro jovens lutavam pacificamente, um impertinente carro, com um casal de preocupados progenitores de uma delas, que se propunha entrar na contenda sem que para ela fossem chamados, se alguma mais valia neles existia, seria apenas na experiencia, porque sendo as armas semelhantes, estariam mais gastas, e já sem capacidade, para dar dois tiros seguidos. Mas os argumentos eram fortes e demolidores e foi sem mais explicações e sem despedida, que tristemente avançaram para o carro e desapareceram na confusão do trânsito. Foi pouco perceptível algo que uma quis dizer, ficou a ideia, que gostariam de os voltar a encontrar.
A juventude faz parte do destino, mas algumas vezes, de forma abrupta é-lhe alterado, e a porta franqueada, antes de ser aberta, foi fechada e quem sabe, se o percurso daquelas almas não teria sido mais interessante!

Foi um desfecho inesperado e pouco desejado, acabou por ser ao mesmo tempo, o primeiro e último assalto, e uma grande desilusão! Era destes inimigos que dão luta pacífica, que os jovens treinados para a guerra, também tinham necessidade, para obter alguma felicidade, que o dever, muito cedo lhes roubou, e nunca compensou.
Poucos dias depois, abandonam a cidade onde só voltaram perto do fim da comissão.
E foi assim morta à nascença, uma boa hipótese de quatro jovens, poderem desfrutar do que mais belo a vida tem para dar.
E a chucha insatisfeita, não se sabe se alguma vez terá sido satisfeita, e a amiga? Será que também terá herdado o nome da amiga! Porque insatisfeita, com os desejos não satisfeitos, por algum sujeito que sem jeito, não colocou hirto o que ela tinha direito! Mas como a guerra é isto mesmo, uma fera sem respeito, nada feito.

Para não ser de modas, e sem dizer palavras incómodas, direi que se perderam muitas? É evidente e claro que a penetração acabaria por ser uma boa solução.

Se fosse jovem, e pudesse voltar a calcorrear os mesmos trilhos voltaria, quanto mais não fosse, para que imprevistos como estes não acontecessem.

Sejam felizes com todos os pensamentos e soluções que vos assaltaram a cabeça, mas o principal busílis da questão é sempre, a dificuldade da concretização.
Vale sempre a pena falar de coisas sérias, brincando com a chama de um lume, que pouco a pouco, vai murchando, ficando, cada vez mais brando.
Gostaria de saber, se o tempo que perdeu, valeu esta história verdadeira que não morreu.

Me desculpem, mas daqui vos mando, um abraço sem erotismo.

Mário Manso

terça-feira, 27 de maio de 2008

OS MORTOS E OS VIVOS



SERVIRAM PARA MORRER E MATAR
SEM NUNCA QUESTIONAR A RAZÃO
NÃO MEREÇEM A JUSTIÇA A DEFINHAR
PARA QUEM TEVE A VIDA AO SERVIÇO DA NAÇÃO

Já vai sendo tempo
Para que os vivos e os mortos
Deixem de ser vistos com olhos tortos
Mas com tanta preguiça
A justiça dos homens torna-se na negação
Da verdade e da razão
Faça-se justiça
A toda uma geração
A quem a guerra fez sofrer
Fez matar e fez morrer
Quantas paixões
Cheias de ternura cheia de amores
A que se não deu vida
Porque cedo lhes pararam os corações
Porque valores
Porque razões
Altruísmo foi coisa que não faltou
Porque muito se morreu
E muito se matou
São mais de uma dezena de milhar
Os nomes prostrados e alinhados
Nas lápides colectivas
Que insensíveis e sem defesa
São muitas vezes humilhados
Por gentinha sem razão
Sem princípios e sem educação
E sem noção do sofrimento
Vão continuar sem respeito
Por aqueles que foram os melhores da nação
E de quem só resta o nome
Escritos no mármore frio que envolve o forte
Que na lembrança de muitos vivos
Ainda cheira ao sangue que antecedeu a morte
De todos quantos lá vão continuar
Com os seus nomes sem vida
Á chuva ao sol ou ao luar
Na mente dos seus companheiros
Dos ainda vivos Soldados e Marinheiros
Eles vão perdurar
Porque o verdadeiro humano
Nunca deixa de sonhar e lutar
E não esquece quem merece
Há razões que ninguém tira
Pelas virtudes e pelos defeitos
Os direitos vão estar na mira
Até que sejam satisfeitos
Às razões dos combatentes
Ninguém deve ficar indiferente
Foi com a vida que estiveram presentes
Milicianos e do quadro permanente
Na retaguarda e na linha da frente
Foi de todas as classes e patentes
E a justiça tem que acordar a sua vertente
Porque tarda reconhecimento aos combatentes
Mas todos unidos de sul a norte
Vamos conseguir a vitória final
Honremos os camaradas com menos sorte
Que na guerra ou não, já encontraram a morte
Mário Manso